Terça-feira, 3 de Março de 2009

 

Na semana que se seguiu ao trabalho, as aulas foram muito mais fáceis de se “suportarem”, tanto para Lúcia como para Pedro. Lúcia já não tinha que andar com as raparigas fúteis da escola e Pedro estava visivelmente mais certinho com as boas influências.

A campainha toca para o final da última aula de sexta.

-Lu, Lu! – chamou Tiff. – Vamos ao Del Ferro, nos jardins, vens?

-Ãh… - olhou para Pedro. – Sim, vou! – respondeu ao vê-lo acenar com a cabeça.

A cidade era mesmo muito bonita, muito mais bonita que a anterior. Era a terceira vez que Lúcia mudava de casa, por causa do emprego do pai. O pai era um chef conceituado e tinha imensas propostas de trabalho. A mãe era uma artista plástica, e por isso também não era muita adepta de uma vida sedentária.

No caminho para a esplanada, as raparigas conversavam animadamente com os rapazes, paravam para falar com outras pessoas, atendiam telemóveis, enfim.

O jardim era uma imensidão de árvores, altas e esguias, flores e arbustos. Ouvia-se o murmurar da água de mil e uma fontes e em cada recanto via-se um casal sentado num banco. Aquele espaço era uma pérola no meio do oceano que era a cidade.

-É lindo não é? – sussurrou Pedro, que tinha reparado na cara maravilhada de Lúcia.

Deixaram-se ficar para trás, a admirar o jardim e a partilhar histórias que este suscitava. Só que se houve alguém que não gostou disso… Marta.

-Lu, Pê, venham, já só há mais uma mesa livre na esplanada! – mentiu.

A esplanada era uma construção moderna, de madeira e ferro, chique, com uma placa de metal dizendo “Del Ferro”. Era onde os jovens gostavam de ir relaxar nas sextas à tarde, sentarem-se nas redes e puffs ou simplesmente ouvirem música enquanto bebiam o famoso copo del Ferro (sumo de lichies e maçã com granizado de laranja).

O grupo sentou-se, fez o seu pedido a um garçom inexpressivo, e deixou-se afundar nos banquinhos, voltando à conversa interrompida:

-Eu cá não vou à festa dela. – disse Bastos, baterista dos Musty Joe.

- Sabes que ela querer saber porquê! – retorquiu Xana.

- Olha, a miúda tem-se andado a passar! Viste as figuras que fez no Green?

Ao que Timas, o “baixista-palhaço”, gracejou:

-Parecia a Xana, só que sem 5 shots em cima!

-Ya, ela nem bêbada estava!

Lúcia mantinha-se à parte, não imaginando sequer de quem falavam.

Só se voltou a concentrar quando o seu nome veio à baila.

-Um dia tens que sair connosco Lúcia!

-Ahah – riu forçadamente. – Pois tenho!

O resto da tarde passou-se normalmente e, um a um, abandonavam a mesa.

-Tens boleia para casa? - perguntou Pedro a Lúcia.

-Sim, se ligar à minha mãe…

-Olha, então eu ligo à minha e ela leva-nos, aproveitas e vens ver um álbum do Lou Reed que tenho em casa…Assinado por ele!

Mas a mãe não atendeu, a chamada ia para o voice-mail. Contrafeito, liga para o padrasto. A mesma coisa.

-Ninguém atende…Estranho…

-Espera, eu ligo à minha.

Quem acabou por dar boleia foi a Lúcia, que deu a conhecer a Pedro a extravagante mas simpática Sra. Sauvage.

Chegam-se ao nº 24 e a mãe pára abruptamente, lembrando-se do jantar que tinha deixado a fazer.

- Ai credo, que vai tudo pelos ares! – disse no seu sotaque afrancesado. – Lúcia, depois volta a pé que também não é longe! – e disto isto acelera a fundo.

O rapaz abre a porta, e na penumbra, procura o interruptor. Já com o hall às claras, o que se segue é um grande silêncio. Encaminhando Lúcia até à sala de estar, descobre na mesa uma mensagem escrita sobre um envelope escrevinhado à pressa.

“Pedro, eu e o teu pai fomos numa viagem de negócios. Voltamos em 2 semanas.”

Um balde de água fria tinha-se despejado.

-Pedro? Está tudo bem? – perguntou Lúcia, ao ver o quão pálida estava a cara dele.

Chegou mais perto dele, e leu o bilhete, gelando também.

-Bem, cá vou ter que me arranjar não é? – disse ele, forçando em vão um sorriso.

Como é que a mãe lhe podia ter feito aquilo? Já o tinha deixado uma vez sozinho, mas tinha-o avisado uns dias antes, e não tinha sido tanto tempo. O que mais o enervava era que a mãe tinha despedido a empregada na semana passada, e agora que pensava bem não encontrava a justificação para tal.

Às vezes assomava-lhe memórias de quando o pai ainda era vivo, e da arrogância que recebia da esposa. Frente às pessoas de fora, era adorável e carinhosa, todos invejavam aquela relação. Mas sozinhos, ela, com o seu ar de superioridade, desprezava-o. Porque é que o pai não reagia? Não tomava uma decisão? Tinha-se apaixonado, apesar de sofrer com aquelas atitudes, não era capaz de fazer fosse o que fosse. Ela tinha-lhe amolecido o coração para depois o pisar.

Na sala, Lúcia mencionava algo como “jantar” e “ajudar”, mas a mente de Pedro divagava nas recordações, num misto de raiva e tristeza.

-Eu já volto, ok? – disse, pousando uma mão no ombro dele.

Ele acenou vagamente, sem ter ouvido uma palavra.

-“-

Ao mesmo tempo, mas noutro sítio, Marta e Xana conversavam acesamente (Nota: acho que inventei uma palavra, espero que percebam):

-Ela chega aqui, a meio do ano, e ele simpatiza logo com ela, viste como estão nas aulas?

-Tem calma Marta, duvido imenso que ele goste dela, sabes como ele é com as raparigas…

-Eu gosto dele e ele sabe bem disso, mesmo assim é bué parvo, dá-me montes de desprezo!

-Até parece que ele não faz isso a todas!

-Bem, não faz isso à Lúcia!

-E estás a pensar fazer o quê?

Marta esboçou um sorriso maldoso.

-“-

-Pedro, cheguei, trouxe pouco de sopa, afinal a minha mãe não a queimou!

Silêncio.

-Vá lá Pedro! Vai tudo correr bem, eu dou-te uma mãozinha!

Lúcia atravessa o hall e defronta-se com um cenário um tanto quanto desagradável. O chão da sala brilhava com os estilhaços daquilo que parecia ter sido uma moldura, e à mistura marinavam em bebida os restos de uma garrafa.

As lágrimas turvavam a visão da rapariga, à medida que tentava se aproximar do amigo, qual marioneta, a tombar do sofá.

Do nada, ele agarra-a, com mais força que a necessária, e olha-a choroso.

-Ele deixou-me! Foi-se embora!

-Quem te deixou?

-O meu pai. – sussurrando sem motivo. – Deixou-me e foi-se embora!

-Calma, ele volta, são só duas semanas!

-Volta?

-Sim, volta.

Um sorriso enorme (e parvinho) estampou-se na cara de Pedro, abraçando Lúcia calorosamente.

-Ãh…Pedro?

-Sim?

-Acho que precisas de um banho…

 

 

*


sinto-me qualquer coisa
música Beat it - M.Jackson

publicado por Caff Eine às 21:58 | link do post | comentar

3 comentários:
De LC* a 3 de Março de 2009 às 22:47
Fantástico *-*
Vês óh grande totó (para a Té), desta vez não fiz correcções.. Humpf :C
(alinha comigo elsa, não lhe contes :D)

A sério, tá mesmo fixe a história e adoro aquele toque que dá sabor a todas as histórias.. a vilã que os vai separar. Muahahahah, adoro-te Marta (:p)


~> MJ ROCKS (JUST BEAT IT)
YEAH \m/


De LC* a 3 de Março de 2009 às 22:54
Ah, também já te ando há "bués" pra dizer isto: Senhora Sauvage..
Sauvage faz-me lembrar TANTO salsichas xD

A sério, porque em inglês é sausage... Sauvage xD
qué? é só trocar uma letra :p
(sou tão totó)

-> Irmã (a verdadeira).. proibida de comentar a frase acima --'

-> não havia salsicha, por isso... vai frango :p


De a 4 de Março de 2009 às 22:12
Nunca gostei de obedecer!
Sauvage faz é lembrar selvagem, em francês, o que também não é melhor. "Esta é a minha mãe, a sra.Selvagem"

E não acredito que essa peste não tenha corrigido nada!

Para mais acrescento que mais valia esse rapaz ser orfão!


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